sexta-feira, 11 de abril de 2008

Escrever-te vai destruindo, vai esfarrapando por dentro. Ainda que as pessoas criem palavras, as palavras mudam as pessoas, e dói ter de saber lidar com a pessoa que és nos versos repetidos de poemas repetidos, e com a pessoa que és quando chego a ti, finalmente. Acho que chegou a altura de te deixar ir, não sei se vai doer. Acho que chegou a altura, mas não sei como se faz. Dizia um poeta que os amigos são difíceis, não acabam de morrer. Tenho o hábito de acreditar em poetas, não sei porquê. Acho que me leram poemas quando eu ainda não percebia palavras e agora, alguns anos depois, tudo o que tenho são palavras, e a certeza de que temos de ir, e o não saber se o vamos fazer, ainda que devêssemos. Não tenho mais mãos para imaginar o que não é, ou para ser o que não há. Cansei-me de salvar afogados, e naufragar em seguida. Acho que descobri como é que as pessoas se vão tornando frias. E dói. Chegou o tempo de partir desse lugar quente que construímos e que acabou por se destruir. As paredes caíram, não há tecto que sustente o que quer que seja. Mas é tempo de partir, para que as memórias desse lugar não caiam também. Como se faz? É possível partir sem dizer adeus? Como vai ser? Será que conseguimos viver sem a dor da nossa existência?

2 comentários:

Consciente Utópico disse...

Eu acredito que consigamos, mas quando estamos quase (se chegarmos a estar quase), há sempre algo mais forte que nos puxa de novo para junto da nossa dor. Afinal, ela aconchega-nos. Temos que ser ainda mais fortes que esse puxão destrutivo e rejeitar o falso conforto da dor.

E eu acredito que possas ser mais forte.
Beijinho.

Beatriz Cruz Soares disse...

Obrigada, por acreditares.
Até porque é mesmo um falso conforto... Só que de tão falso, acaba por ser real. E de repente, o que é que é real, se a dor está lá? Enfim. Acredito que saibas do que falo.

Beijinho.